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terça-feira, 12 de julho de 2011

A Águia e A Galinha

#texto do programa do dia 11/07/2011 na Rádio Mundial  


A Águia e A Galinha
(Leonardo Boff – filósofo e teólogo brasileiro)
“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei / rainha de todos os pássaros.
         Depois de cinco anos, este homem recebeu a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: – Este pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
         – De fato, – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
         – Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
         – Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
         Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:– Já que de fato você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
         A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
         O camponês comentou: – Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
         – Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
         No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe: – Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
         O camponês sorriu e voltou à carga: – Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
         – Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
         No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas. O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra as suas asas e voe!
         A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
         Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico “kau-kau” das águias e ergueu-se soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou... voou... até confundir-se com o azul do firmamento...”

 
         Esta parábola evoca dimensões profundas do espírito, indispensáveis para o processo de realização humana: o sentimento de auto-estima, a capacidade de dar a volta por cima das dificuldades quase insuperáveis.
Cada pessoa tem dentro de si uma águia. Ela quer nascer. Sente o chamado das alturas. Busca o sol.
Uma águia tem dentro de si o chamado do infinito. Seu coração sente os picos mais altos das montanhas. Por mais que seja submetida a condições de escravidão, ela nunca deixará de ouvir sua própria natureza de águia que a convoca para as alturas sublimes.

         As pessoas que alçam vôo sublime são as que se recusam a deitar-se, a suspirar e desejar que as coisas mudem!  Tais pessoas não reclamam sua sorte e tampouco sonham, passivamente, com algum navio longínquo que vai chegando para levá-la pra bem longe. Em vez disso, visualizam em suas mentes que não são desistentes; não permitirão que as circunstâncias da vida as empurrem lá para baixo, e as mantenham subjugadas como galinhas.

         Vamos, voe... Voe e vença, ocupe o lugar  que é seu no alto do penhasco.


        ***Em vários momentos de nossa existência acreditamos que somos apenas galinhas, mas somos águias, prontas pra alçar nossos vôos cada vez mais altos rumo à realização, à descoberta de nossas capacidades, nossos dons preciosos e o amor incondicional pela nossa natureza luz perfeita. Grande parte de nossos conceitos, nossa educação, nossa cultura, nossos paradigmas, dogmas religiosos, nos ensinam que somos galinhas, que podemos apenas ciscar as migalhas, os grãos do chão da acomodação, do medo, da covardia e da preguiça emocional, mas a escolha de acreditar ou não em tudo isso é SEMPRE NOSSA!
        Somos águias com o direito de desbravarmos o horizonte das possibilidades infinitas, chamado VIDA! (McSàlomão)